Tão perto e tão longe: a arte do pênalti

 Pela alegria que alguns jogadores demonstram ao ver o juiz apontar a marca do pênalti, a tarefa pode parecer mera formalidade. No entanto, a rapidez do momento e os 11 metros que separam a marca e o gol podem representar algo bem mais complicado. O FIFA.com analisa agora a arte das cobranças de pênalti, da preparação à execução, e relembra os especialistas, os artilheiros históricos e os cobradores azarados.

A beleza do futebol está no fato de ele ser imprevisível. Ainda assim, há quem diga que desvendar todos os seus segredos é algo perfeitamente possível. Pesquisadores da Universidade John Moores, de Liverpool, por exemplo, garantem ter encontrado a fórmula para uma cobrança perfeita de pênalti. Segundo eles, é preciso contar de cinco a seis passos antes do chute e fazer com que ele atinja no mínimo 105 km/h, com um ângulo entre 20 e 30 graus para que a bola passe exatamente a 50 centímetros tanto do travessão como de uma das traves. Já os estatísticos da Castrol constataram que 95,4% dos pênaltis cobrados pelo alto têm endereço certo, enquanto apenas 71,3% dos chutes rasteiros acabam no fundo das redes.

No Brasil, uma frase famosa diz que o pênalti é tão importante que apenas o presidente do clube deveria cobrá-lo!

Presidente do clube e herói tcheco
O pênalti seria então uma formalidade? Não necessariamente. O fato de existirem especialistas em cobranças e, ao mesmo tempo, jogadores que fogem da responsabilidade mostra que a tarefa exige certas habilidades. Além de um chute potente e certeiro, é preciso sobretudo ter um bom controle psicológico. “A condição física e a determinação são fatores importantes no momento da cobrança”, confirma Dunga, hoje treinador da seleção brasileira e um dos que marcaram na decisão da Copa do Mundo da FIFA 1994, contra a Itália. “No Brasil, a gente diz que o pênalti é tão importante que apenas o presidente do clube deveria cobrá-lo”.

Alguns jogadores, aliás, ganharam o status de herói depois de converterem pênaltis importantes. Um dos casos mais célebres talvez seja o do tcheco Antonín Panenka. Mais do que ter perdido apenas um pênalti em toda sua carreira, ele foi o responsável pela criação de um estilo que até hoje é copiado: na final da Euro 1976, contra a Alemanha, ele marcou o pênalti decisivo dando um leve toque na bola, que entrou pelo alto, no meio do gol, enquanto o goleiro saltava para o canto. O estilo da cavadinha ficou conhecido como “Panenka” para os europeus. “Fico feliz por ter deixado essa marca”, diz o orgulhoso tcheco. “Aquele pênalti fez com que eu me tornasse conhecido. Por outro lado, acho que tive outras grandes atuações, que acabaram sendo esquecidas por causa daquela cobrança”.

Fico feliz por ter deixado essa marca. Por outro lado, acho que tive outras grandes atuações, que acabaram sendo esquecidas por causa daquela cobrança.

Os ingleses Alan Shearer e Gary Lineker também se tornaram especialistas em pênaltis. Mas, no Reino Unido, o grande nome da especialidade é Matthew Le Tissier. O ex-jogador do Southampton converteu 49 dos 50 pênaltis que cobrou na carreira, falhando apenas contra o goleiro do Nottingham Forest, Mark Crossley, reconhecido pela excepcional visão e agilidade nas cobranças.

Outro especialista, Roberto Baggio é detentor da melhor porcentagem de acerto na história do Campeonato Italiano, com 76 gols em 91 cobranças ao longo de 22 anos de carreira.  No entanto, o ex-craque da Juventus certamente trocaria todos aqueles gols por apenas um, na final da Copa do Mundo da FIFA 1994, nos Estados Unidos. Último batedor da seleção italiana na ocasião, Baggio chutou forte e viu a bola passar por cima do travessão, pondo fim às chances de a Itália ficar com o título. “Normalmente, os pênaltis que o Baggio batia eram rasteiros, mas naquele dia ele chutou pelo alto, o que mostra bem como as cobranças podem ser estressantes”, apontou o lateral-esquerdo Branco, que comemorou a conquista brasileira naquele dia.

Grandes jogadores, imensa pressão
Assim como o craque italiano, outros gênios também fracassaram em cobranças de penalidade máxima. Nas quartas-de-final no México 1986, o francês Michael Platini, que nunca havia errado antes em toda a carreira, lembrou um jogador de futebol americano ao chutar por cima do gol na decisão contra o Brasil. De qualquer forma, os franceses ainda saíram vencedores porque Zico e Sócrates, dois artistas da bola, também viveram um dia terrível: enquanto o Galinho havia perdido um pênalti durante a partida, o Doutor chutou à meia altura e o goleiro Bats defendeu.

Em 2003, David Beckham escorregou na hora de chutar, e a bola acabou indo para as arquibancadas do estádio Şükrü Saraçoğlu em jogo contra a Turquia válido pelas eliminatórias da Euro 2004. Ainda em Istambul, mas alguns meses mais tarde, o ucraniano Andriy Shevchenko, melhor jogador europeu do momento e atacante do Milan, não conseguiu superar o goleiro Jerzy Dudek, permitindo que o Liverpool conquistasse a Liga dos Campeões de 2005.

O próprio Diego Armando Maradona também viveu o mesmo tipo de drama em algumas oportunidades. Com o Boca Juniors, no Campeonato Argentino de 1996, “El Pibe de Oro”, como ficou conhecido no país, errou nada menos que cinco cobranças seguidas em cinco partidas diferentes, contra Newell’s Old Boys, Belgrano, Rosario Central, River Plate e Racing. Na sexta vez em que o Boca teve um pênalti, Maradona passou a responsabilidade a Juan Sebastián Verón. “Agora é com você, porque estão dizendo que eu não consigo nem mais ver o gol direito”, justificou-se, então, o maior ídolo da história do país. Verón cobrou e, por ironia do destino, também errou.

A esses casos clássicos podemos somar outros como o do holandês Marco van Basten (Euro 1992), o do espanhol Raúl (Euro 2000), o do marfinense Didier Drogba, (final da Copa das Nações Africanas de 2006) ou o do português Cristiano Ronaldo (final da Liga dos Campeões de 2008). Todos corroboram a teoria de alguns torcedores de que “são sempre os grandes craques que acabam perdendo o pênalti”. Obviamente, ela não se justifica, já que os gênios acertam e erram tanto quanto outros jogadores.

Zagueiros azarados
Ainda na busca por jogadores que carregam uma espécie de “maldição” dos pênaltis, alguns laterais franceses se destacam. É o caso de Manuel Amoros, na final da Liga dos Campeões de 1991 contra o Estrela Vermelha de Belgrado, de Bixente Lizarazu, que teve a cobrança defendida por Gianluca Pagliuca nas quartas-de-final da Copa do Mundo da FIFA 1998, e de Eric Abidal, nas quartas-de-final da Liga dos Campeões de 2005 contra o PSV Eindhoven.

Ninguém queria cobrar porque sabia o que poderia acontecer caso errasse. Nas Olimpíadas de 2000, em Sydney, bati o último pênalti da final, marquei e conquistamos a medalha de ouro.

A missão de bater um pênalti também é um problema para quase todos os zagueiros. Na final da Copa America de 2004, o argentino Gabriel Heinze errou feio o alvo na série decisiva contra o Brasil. Já o camaronês Pierre Womé não deve se esquecer da última partida das eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA 2006, contra o Egito. No último minuto do confronto, Camarões conseguiu um pênalti que poderia levar o país à classificação. Mas o lateral-esquerdo do Milan chutou na trave e encerrou as chances da seleção. “Ninguém queria cobrar porque sabia o que poderia acontecer caso errasse. Nas Olimpíadas de 2000, em Sydney, bati o último pênalti da final, marquei e conquistamos a medalha de ouro.”

De três em três
Mas nem todos os laterais tremem no momento decisivo. Andreas Brehme, por exemplo, fez com que a seleção da Alemanha Ocidental se tornasse campeã do mundo ao marcar o único gol da final contra a Argentina em cobrança de penalidade máxima. Curiosamente, os alemães haviam se classificado na semifinal ao baterem a Inglaterra nos pênaltis após um erro de Stuart Pearce. E qual a posição em que ele jogava? Lateral-esquerda, claro.

O fim da viagem passa por dois gigantes do futebol, Brasil e Argentina, com dois atacantes que marcaram a história dos pênaltis. Numa partida das eliminatórias para a Alemanha 2006, o brasileiro Ronaldo ajudou a seleção a vencer os grandes rivais ao marcar três gols de pênalti (3 a 1 foi o placar final). Já o argentino Martin Palermo escreveu o seu nome na história na Copa America de 1999, no jogo contra a Colômbia, também por três cobranças, todas perdidas. “Na primeira partida marquei dois gols e todo mundo falava que eu seria o artilheiro, mas três dias depois errei três pênaltis e me tornei o pior atacante do mundo”, lembrou Palermo. “Aprendi bastante com aquela história. Em um dia você pode estar no topo; no outro, no buraco.”

Histórias que resumem a arte do pênalti: uma tarefa aparentemente simples, mas que pode se tornar extremamente complicada.

Fuentes: FIFA.com